Não use o mesmo!

Não use o mesmo! É muito comum o uso de “mesmo” e seus derivados (mesma, mesmos) como se fosse um pronome, ou seja, usado para retomadas. Porém, esse uso não está correto, além de gerar ambiguidades. Vejamos o porquê.

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Tudo começou com a Lei Estadual nº 9502, de 11/03/1997. Graças a nossa capacidade linguística e contextual, entendemos que “o mesmo” está se referindo ao “elevador”, pois esse é o único substantivo masculino que poderia ser retomado, já que “passageiros” está no plural. Porém, muitas piadas surgiram na época à procura do “mesmo”. Quem seria esse bicho-papão?

O texto da lei virou piada na rede social Orkut e foi tema do vestibular da Unicamp em 2011, na segunda fase. A proposta da questão era, justamente, reescrever o texto da lei eliminando o “mesmo”. Assim, possíveis soluções seriam:

Antes de entrar no elevador, verifique se ele se encontra parado neste andar.
Verifique se o elevador se encontra parado neste andar antes de entrar.
Não tente entrar no elevador antes de verificar se ele está parado neste andar.
Só tente entrar no elevador depois de verificar que ele está parado neste andar.
Antes de entrar, verifique se o elevador se encontra parado neste andar.
Verifique se o elevador se encontra parado neste andar, antes de entrar

O que dizem as gramáticas?

Embora não haja consenso entre as gramáticas sobre esse uso ser incorreto, é certo que “mesmo” pode ter a função de adjetivo, substantivo, conjunção ou advérbio, mas não de pronome. Ou seja, não funciona muito bem nas retomadas, substituindo um nome.

Vejamos alguns sinônimos de “mesmo”. Primeiro, como adjetivo, “mesmo” pode ser sinônimo de “próprio“. Depois, como “substantivo”, ele equivale a “mesma coisa“. Já na função de “conjunção”, significa “embora“. Por fim, o advérbio “mesmo” é sinônimo de “também“.

Vejamos alguns exemplos corretos, retirados do Dicionário Houaiss

A mesma testemunha foi chamada ao tribunal.
Ele consulta os mesmos dicionários que eu.
Respondeu-lhe com o mesmo tom.
Vieram da mesma região.
Nasceu em 1937, e nesse mesmo ano morreu-lhe o pai. 

Afinal, o que fazer com o “mesmo”?

Na dúvida, não use! Utilize outros pronomes para fazer a retomada, como os demonstrativos (esse, este, aquele), ou utilize um sinônimo. Há diversas formas de se fazer a coesão textual e a repetição do “mesmo” é uma das menos produtivas.

QUEM ESCREVE?

Fernanda Massi é Mestra e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp/Araraquara. Ela é também Pós-Doutora em Linguística Aplicada pela UNICAMP. Foi professora de Leitura e Produção de Textos na Unesp/Araraquara e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Nesse período, orientou trabalhos de conclusão de curso (TCC) e de iniciação científica. Fernanda trabalha com revisão de texto desde o início da sua graduação em Letras (2004) e é também a responsável pelas revisões da Letraria.

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